Lembrando de mim

Essa foto para maioria de vocês pode parecer suja, feia, um pedaço de esgoto aberto no meio da maior cidade portuária do país… Mas pra mim essa é a BACIA DO MACUCO

Bacia do Macuco

Bacia do Macuco

Ontem a noite, estive com dois amigos dos tempos de garoto. E sabe de uma coisa? Eles me trouxeram de volta.

A vida que tive perto desse “esgoto aberto” foram os melhores anos da minha vida.

Sempre escutei que sou muito nostálgico e que vivo no passado… Na realidade não é assim não.

Não sei onde me perdi exatamente. Talvez depois que torci o joelho ou com a faculdade…não sei ao certo.

Conversando com os garotos lembrei de coisas que já tinha me esquecido.

As tardes de verão pulando nesse “esgoto aberto”, subindo nos conteiners para pegar ingás, escalando as empilhadeiras dos pátios,…
Mais que tudo eramos LIVRES.

Livres de responsabilidades e muito felizes.

Sou feliz hoje em dia por tudo o que vivi na Bacia do Macuco. E por um tempo esqueci de onde vim.

Eu venho do “bequinho” da Capitão Alberto Mendes Jr., das tarde de esconde-esconde na Almirante Tamandaré, dos ensaios no canal da bateria da X-9, de jogar futebol na Padre Paulo, pular o muro do Cidade de Santos, esperar o sábado para alugarmos jogos de Snes na Chromo, andar de skate na praça Palmares, malhar o Judas na Santos Dummont, confundir a OSWALDO Cochrane com ALMIRANTE Cochrane, juntar todas as crianças para procurar doces no dia São Cosme e Damião, as festas juninas na casa da Dona Tereza, mão-na-mula no meu prédio, correr da “Xuxa” a cachorra assassina da Robertinha, brigar com o meu arqui-inimigo de infancia o Kleber (hoje um grande amigo e pai do Davi), as viagens para a praia do Góis com o tio Rubinho, …

A vida foi maravilhosa na Bacia do Macuco, meus primeiros amores, meus primeiros ódios, minhas primeiras conquistas e minhas maiores decepções …

Fiquei adulto e me esqueci que nunca precisei de muito pra ser feliz.

No último feriado do dia 7 de setembro, dia da Independencia do Brasil, viajamos para Campos do Jordão com um casal de amigos, seus dois cachorros e um garoto de 4 anos.
A viagem foi muito boa, vimos as lojas, comemos muito chocolate, vimos o ponto mais alto do estado de São Paulo…
Um dos lugares mais confortáveis e luxuosos do Brasil. Uma verdadeira faca de dois gumes permitam-me dizer …

Para alguém que nasceu em Santos, ostentação, caviar e Pitú em um mesmo evento é coisa banal.
Eu consegui me lembrar do quanto me sinto desconfortável com algumas coisas que para a maioria é bom. Também sou ser humano, gosto de cerveja boa, comida boa, viagens boas, roupas boas, bons perfumes… mas fui criado no Macuco, sempre fica algo dentro de mim, dizendo: “Ei cara, a geladeira está vazia !!” ou “Isso acaba e você vai ter que comprar cigarros com as moedas do Búda” …

E quando estou com os mais antigos tomando cerveja gelada no tanque (hoje evolui compramos um isopor grande), fazendo churrasco num bloco, ouvindo músicas ruins (leu esse Lucas???), me sinto mais completo. Não tenho a sensação de que algo está faltando ou que as coisas são demais.

Gosto da cerveja na praia de São Sebastião, no carnaval, em uma casa velha sem caseiro e chuveiro quente, sem nada para comer e um freezer que se você lotar-lo de cerveja todas congelam. Gosto de ir no “inverno quente” caminhando e dando risada pelo caminho, gosto de caminhar na praia de manhã cedo com meu primo e ficar falando da vida alheia, gosto de passar o ano novo com as mesmas pessoas todos os anos e todo ano tentar fazer algo especial, …

Nunca precisei de luxo, comidas requintadas, carros luxuosos ou viagens super confortáveis. Me dê uma mochila, algum dinheiro e uma boa companhia que eu me sinto muito bem.

Tenho um amigo que tem um sitio em Pedro de Toledo, uma cidade distante de Santos e são necessários 6 ônibus para chegar lá, ir para lá dessa maneira demora 7 horas em uma viagem que de carro fazemos em 3; é o nosso famoso “pingado”, devido as paradas do ônibus.

Foi a melhor viagem de ônibus que fiz na vida.

Vimos um velho perneta que tocava violão dentro do ônibus, ficamos esperando condução em uma estrada de terra em que o ônibus demorou 1hora e meia para chegar, meu amigo tomou um coice de um cavalo e caiu na lama, teve que se trocar no meio do mato e estava colocando as calças quando o ônibus chegou, muitas senhoras assistiram ele correndo com as calças arreadas em direção ao ponto de ônibus… foi bastante divertido. Afinal, “sem contra-tempos não tem história”.

Eu abri meu álbum de fotos antigas ontem a noite e vi meu pai.

Esses dias uma moça me pediu ajuda e quando contei para minha namorada ela disse: “vai lá Cláudio!!!”

Aquilo me chamou muita atenção, me orgulho de não ser parecido com meu pai em nada e a única coisa que vi nele como qualidade depois de adulto foi a situação que minha namorada disse em um tom pejorativo, como quem diz: “você está fazendo igual a ele!!!”.

Não tenho boas histórias para contar sobre papai, mas as poucas histórias que ouvi dele, que considero boas, são as que ele ajudava as pessoas. Eu sou assim, nunca parto do princípio que as pessoas são ruíns e sou grato a Deus por nunca ter encontrado ninguém “mau” no meu caminho.

Saber que ainda existem coisas dentro de mim dos velhos tempos é bom, consigo me reencontrar com mais facilidade.

Ajudo as pessoas com o mesmo ânimo que gostaria que elas me ajudassem em momentos difíceis. Não soa muito altruísta, mas é assim que consigo. Me ponho no lugar de pessoas corajosas, pessoas como mamãe.

Mamãe saiu da Bahia fugindo de um casamento ruim e teve coragem de procarar a minha avó aqui em São Paulo. E ainda batalha todos os dias para nos ajudar a crescer como indivíduos. Meu irmão mais velho logo depois que papai morreu, teve a coragem de trabalhar com apenas 17 anos para ajudar em casa. Gosto muito da história de vida das pessoas da minha família, mas o maior problema que temos é que todos nós somos nossos próprios heróis.

Mamãe é a guerreira que sempre se virou sozinha

Papai é o cara que veio para Santos com 1000 cruzados no bolso

Meu irmão mais velho é o cara que teve que largar os estudos para sustentar a casa

Meu irmão caçula encontrou na religião a coragem de viver a própria vida e encontrou o seu caminho para o futuro.

Acho que os Viannas estão sempre se espelhando uns nos outros e por isso nos enganamos achando que não temos heróis.

Eu tinha me esquecido o que era esse orgulho de ser quem somos.

Foi muito cultivado pelo vovô, mas depois que ele ficou senil a familia perdeu algumas de suas principais caracteristicas. E esse norte estava me fazendo falta.

Precisei encontrar com o Leandro e o Clayton para poder me lembrar.

Amei os meus dias de Macuco e nunca mais vou me esquecer deles e de quem eu realmente sou.

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~ por danielcelha em 11/09/2009.

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